Quando a Ufologia Deixou de Investigar e Passou a Apresentar
O Profeta do Mistério:
Houve um tempo em que o mistério precisava ser perseguido.
Hoje, ele precisa apenas ser apresentado.
A transição é sutil, mas decisiva: o investigador deu lugar ao curador de espanto. Não alguém que busca respostas, mas alguém que garante que o mistério continue circulando — intacto, sedutor e inconclusivo o suficiente para o próximo vídeo.
Se no universo de Arquivo X o conflito era entre fé e razão, hoje ele é entre método e performance. E essa mudança explica por que a ufologia contemporânea se parece menos com investigação… e mais com um show permanente.
Do investigador inquieto ao apresentador carismático
Mulder investigava mesmo quando isso o isolava.
Errava, insistia, perdia. A busca tinha custo.
O profeta moderno não investiga — encena.
Ele não corre o risco da refutação, porque sua autoridade não vem da evidência, mas do carisma e da narrativa. Seu papel não é resolver o mistério, mas habitar o palco.
A lógica mudou:
- o investigador aceita perder uma hipótese
- o profeta precisa manter a audiência
Quando o mistério vira identidade, descobrir a verdade passa a ser uma ameaça.
Basta observar o ciclo perpétuo de Jaime Maussan:
o “ET” que era um macaco,
as “fadas” que eram bonecos,
as múmias “alienígenas” que se revelam montagens com ossos humanos.
Cada caso, refutado.
Cada narrativa, reencenada.
A autoridade não vem da taxa de acerto, mas da capacidade de reerguer o palco.
O alquimista midiático
O profeta do mistério opera como um alquimista midiático.
Ele pega o chumbo do fato banal, mistura com o mercúrio da sugestão, e apresenta o ouro falsificado do segredo cósmico.
Nada é definitivamente falso.
Nada é definitivamente verdadeiro.
Tudo permanece no limbo perfeito do engajamento.
Essa figura não precisa provar — apenas convencer emocionalmente. Quando algo é refutado, não há correção; há reposicionamento. O erro não encerra a narrativa. Ele alimenta a próxima.
A imunidade à prova
Aqui está o ponto mais delicado — e mais revelador.
Quando um caso é desmontado, o público não abandona o profeta. Pelo contrário: cria uma nova camada de explicação para protegê-lo. A refutação vira evidência de perseguição. A crítica vira confirmação.
Forma-se um circuito fechado:
- se concorda → você entendeu
- se discorda → você faz parte do sistema
A prova deixa de ser critério.
A lealdade toma seu lugar.
Primeira Lei da Ufologia-Espetáculo:
a resiliência de uma narrativa é inversamente proporcional à sua veracidade.
Quanto mais fácil for refutá-la, mais fervorosa será a defesa de seus fiéis.
Especialistas de nicho vs. ciência do sistema
O profeta do mistério prospera num conflito muito específico do nosso tempo:
- de um lado, o especialista de nicho, que diz o que queremos ouvir
- do outro, o cientista institucional, que diz o que precisamos saber
Não é uma disputa de dados.
É uma disputa de afeto.
A ciência trabalha com incerteza pública, revisão, lentidão.
O profeta trabalha com certeza privada, urgência e espetáculo.
Na economia da atenção, o segundo quase sempre soa mais convincente.

O público como torcida
O mistério, antes, convidava à dúvida.
Agora, exige posicionamento.
Crer ou negar virou identidade.
Questionar virou traição.
O público não acompanha mais uma investigação — acompanha um campeonato narrativo, onde o importante não é o que é verdadeiro, mas quem vence o debate simbólico.
Um fecho (que não é para todos)
Nada disso significa que o fenômeno OVNI/UAP seja inválido. Pelo contrário. Existem investigações sérias que operam sob um protocolo oposto ao do espetáculo: transparência de método, publicação de dados, disposição real para abandonar hipóteses.
Pesquisadores como Avi Loeb, por exemplo, defendem exatamente isso: menos narrativa, mais instrumentação; menos palco, mais método.
Essas investigações não geram hype.
Geram, quando muito, relatórios técnicos.
E é exatamente por isso que são ignoradas pelo circuito do mistério-produto: falta-lhes o carisma do segredo.
Talvez o maior sinal de que algo deu errado seja este:
o mistério já não nos torna humildes.
Ele nos torna fiéis.
E quando o mistério exige fé no mensageiro — e não curiosidade sobre o fenômeno — ele deixa de apontar para o desconhecido
e passa a apontar apenas para si mesmo.
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